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Carla Tozo: de Niterói para o mercado, com coragem, fé e um diploma que chegou aos 40

A história de Carla Tozo, registrada no eBook Mulheres do Leste Histórias Reais (1ª Edição), revela uma trajetória marcada pela perda precoce, pela reinvenção profissional e pela recusa em parar.

Por Pedro Estigarribia

Publicado em 25 de Abril de 2026 • 6 min de leitura

Foto de Carla Tozo

Perfil Profissional / Fotógrafa: Karine Rangel

Nascida e criada em Niterói, Carla Tozo cresceu numa casa simples à beira de um sítio onde a infância tinha cheiro de terra e liberdade. Corria descalça, subia em árvores e inventava brincadeiras com outras crianças. Mas dentro de casa, o cenário era outro: o alcoolismo do pai tornava os fins de tarde imprevisíveis, e a menina aprendeu cedo a ler o clima do ambiente antes mesmo que os adultos soubessem das palavras.

A morte do pai, quando Carla tinha entre 14 e 15 anos, foi o ponto de ruptura que também se tornou o ponto de partida. Sem espaço para estagnação e sem o luxo de se perder em lamentos, ela foi empurrada para dentro de si mesma e para frente. Enquanto amigas falavam de festas, ela pensava em como dar conta da vida.

Após concluir o ensino médio no Liceu, tentou o vestibular para Psicologia. Não passou. A frustração durou pouco. Foi ao Senac em busca de qualquer curso que a mantivesse ativa e, num corredor, viu um aviso sobre o processo seletivo para técnico em Estética. Era uma quarta-feira. A prova seria na sexta. Ela foi.

Passou. E descobriu, aula a aula, um universo que não conhecia mas que parecia ter sido feito para ela. O contato com o corpo humano, com o cuidado, com a autoestima das pessoas tudo aquilo a fascinava. A menina que não passou no vestibular encontrou na estética não apenas uma profissão, mas um propósito.

"A mulher que eu sou hoje nasceu de cada dor que eu suportei calada, de cada recomeço que ninguém viu, e da fé que nunca me deixou parar."

Resiliência Sem agenda, sem contatos, sem clientes Carla chegou a Icaraí com uma sala alugada e a convicção de que o trabalho falaria mais alto que qualquer apresentação.

Da sala de Icaraí ao centro de estética

Com o curso concluído, Carla foi para Icaraí uma das áreas mais valorizadas de Niterói sem nome, sem rede e sem clientes. Fez panfletos, foi para a rua, entrou em eventos, abordou desconhecidos. A missão era que as pessoas conhecessem seu trabalho, nem que fosse na marra. Foi uma das primeiras profissionais a ingressar no Peixe Urbano, plataforma de cupons que estava começando no Brasil. A estratégia deu certo. A clientela cresceu. Logo, ela tinha mais de quinze profissionais trabalhando com ela.

Então veio a crise do estado do Rio de Janeiro. O funcionalismo parou de receber. O movimento caiu. Carla precisou fechar uma das salas, demitir parte da equipe, recolher sonhos para dentro. Foi um corte invisível. Mas no meio desse colapso, algo começou a nascer: a necessidade de se reinventar não só como profissional, mas como mulher.

O diploma que chegou aos 40

A decisão foi ousada: cursar Biomedicina. Já não era jovem, já carregava anos de estrada e foi estudar mesmo assim. Reorganizou a rotina, enxugou a vida, dividiu horas entre o trabalho e a faculdade por anos. Teve vontade de desistir várias vezes. Mas a fé, segundo ela, sempre dava mais um fôlego quando tudo parecia desmoronar. Aos 40 anos, recebeu o diploma. Não era só um título: era a resposta para todas as vezes que ela mesma duvidou.

Hoje, Carla Tozo sabe que ainda há muito a construir. Falta estabilidade financeira, falta reconhecimento pleno. Mas o que ela mais carrega é a certeza de que cada cliente que passou pela sua maca saiu não só mais bonita, mas mais forte. "Eu costumo brincar que faço terapia de hora em hora com uma louca diferente", ela diz, rindo. A verdade, porém, é que no meio dessa loucura, ela também está crescendo humana, espiritual e profissionalmente.

A história de Carla Tozo não é uma história de chegada. É uma história de permanência. De quem aprendeu, na prática, que fechar uma porta pode ser o começo de uma versão mais inteira de si mesma.

Trajetória

Do sítio de Niterói à biomedicina: como Carla Tozo construiu uma carreira que a crise não conseguiu derrubar

A trajetória de quem entendeu que reinvenção não é recuar, é se preparar para o próximo salto e provou isso com décadas de trabalho real, sem atalhos e sem parar.